04 janeiro 2008

... das leis da morte libertando.


Há uma mendiga ao fundo da rua cuja existência se resume a, além de si própria, um gato e um cão, dois carrinhos de supermercado cheios de lixo. Curiosamente, e ao invés de outros com a mesma condição, esta não escolhe arcadas nem viadutos para, digamos, assentar arraiais, preferindo passar os dias (e as noites, suponho) ao completo relento, a bordar e bordar e bordar trapos e trapos e mais trapos imundos. De vez em quando muda-se para uma centena de metros mais abaixo, empurrando os carrinhos pelo meio da avenida - primeiro um, depois outro - indiferente à velocidade dos carros que se vão desviando. Depois volta, passado algum tempo, pelo mesmo caminho.

Um dia destes, quando cheguei a casa, tinha havido um atropelamento – sirenes, polícia, um corpo no chão coberto com um lençol - “foi ela”, pensei, mas, na manhã seguinte, lá estava de volta aos bordados e a vociferar com(tra) o mundo, no esplendor da sua imortalidade.

É provável que James Lavelle e Tim Goldsworthy (que respondem pelo nome de UNKLE desde 1994) também conheçam alguém assim; o vídeo, tão arrepiante quanto fantástico, para a canção Rabbit in your headlight não pode ter surgido por acaso.

(E sim, a voz é mesmo de Thom Yorke).

28 dezembro 2007

Midnight summer dream


Completamente de acordo, PºG: aproveito para postar aqui ao lado uma versão ao vivo do Midnight summer dream (Feline, 1983), achei piada ao tique do Hugh Cornwell (afinal o Andrew Bird não é o único com um nervous tic motion of the head to the left!) e, claro, ao som do baixo.

27 dezembro 2007

Impressões


Fui hoje, pela primeira vez, à livraria Byblos; confesso que fiquei decepcionada. O espaço é grande - grande demais - e a ideia com se fica (ou melhor, com que eu fiquei) é que há um pouco de tudo, mas de nada em especial. Por exemplo, fui até à estante dos livros em Espanhol, na esperança de encontrar escritores Hispânicos mas, à excepção de Muñoz Molina e mais um ou outro, a maior parte dos livros à venda são traduções dos Portugueses (sobretudo Saramago - who else? - Lídia Jorge e Fernando Pessoa). De Ballester, Almudena Grandes, Maruja Torres, Carmen Posadas ou Rosa Montero (para falar apenas em alguns "best-sellers" contemporâneos), nem vestígios.

Depois, também não percebi porque é que metade da estante de Sociologia está ocupada com livros de Antropologia (e a outra metade com a colecção do Alberoni, enfim...). Valia mais que lhe chamassem Ciências Sociais e pronto, assunto arrumado.

Também há CD's e DVD's que, pela quantidade e tipo de oferta, não ficam muito a dever aos que podemos encontrar no Jumbo ali mais à frente. Por falar em DVD's, temo que uma livraria desta dimensão não sobreviva sem a componente electrónica e de gadgets que caracterizam a oferta da Fnac; teria sido mais inteligente inspirarem-se aí que no amarelo torrado do logotipo.

Last but not least: a localização. Quem é que troca uma ida ao Chiado, com o metro praticamente dentro da Fnac, pela esquina mais deprimente de Campo de Ourique e Amoreiras, onde não se consegue estacionar, não há metro e os autocarros são escassos?

Eu não troco. Antes o Colombo. Ou mesmo o novo Allegro, diz que também tem uma Fnac.

Não havia necessidade


O Embirrante faz hoje três-anos-três.

26 dezembro 2007

Sic(k)


Não sei qual foi o balanço final da "Operação Natal" mas, para a SIC Notícias, o número de mortos e feridos deve ter ficado aquém das expectativas; já todos percebemos que os mortos vendem sempre melhor que os vivos mas, senhores, um pouco mais de contenção talvez não fosse má ideia: estar, hora a hora, a repetir o número de acidentes, de mortos e de feridos – com as inefáveis reportagens em directo – sempre com um ar de "não se vá embora, vamos mostrar mais acidentes já a seguir", convenhamos, serve a quem? Não há mais nada para dizer? Não se passa mais nada em Portugal e no resto do mundo?

E, já agora, não haveria nenhum programa mais interessante para passar na noite de Natal que os encómios da Micas a Salazar?

E o que dizer do facto de Pedro Mourinho (que nunca devia ter saído do Jornalinho) ter apresentado a capa do Público – nomeadamente o título "Cinco chefs reciclam os restos do nosso Natal" – como um artigo muito útil às donas de casa? Terá estado a ver o programa da Micas?

Não fosse o fantástico Mário Crespo com o seu Jornal das Nove e já teria desistido da SIC Notícias há muito tempo.

12 dezembro 2007

Mudança de fornecedor


As notícias aqui ao lado passam a ser fornecidas pela TSF, ficando o Público disponível "apenas" no Quiosque. Temos pena.

P.S. Ainda me senti tentada a usar o RSS do El País, mas depois achei que seria um bocadinho, digamos, demais... a ver se não me arrependo.

10 dezembro 2007

"Words and a piece of paper"


Ainda a propósito deste concerto, deixo aqui ao lado aquele que Hanne Hukkelberg deu em Amsterdão há menos de um mês, por ser em tudo semelhante ao que vi no Lux. Muito cool.

09 dezembro 2007

Cinco (ou seis) filmes


Espero ainda ir a tempo, PºG, de responder ao teu convite para falar dos meus cinco filmes. Escolher só cinco não é fácil, assim que começamos a pensar nos filmes que gostamos somos logo invadidos por uma dezena deles, todos potencialmente listáveis. Mas adiante.

Aquilo que eu gosto mesmo num filme é de uma boa conversa e de personagens com alma; gosto de filmes que não parecem filmes (desprezo completamente os efeitos especiais), que nos devolvem as nossas idiossincrasias, emoções, interrogações e paixões; gosto de filmes com pessoas lá dentro; gosto destes (e de muitos outros também):

Caro Diario, Nanni Moretti, 1993 (para escolher só um dele...).

Tudo sobre mi madre, Pedro Almodôvar, 1999 (idem).

Before sunrise / Before sunset, Richard Linklater, 1995 e 2004.

Lost in Translation, Sofia Copolla, 2003.

Garden State, Zach Braff, 2004.

E, porque se faz tarde, não passo a corrente mas convido quem quiser a deixar aqui as suas escolhas.

03 dezembro 2007

Hoje somos todos Venezuelanos



Fotografia: Reuters

Adenda: Entretanto, o Pasquim do Belmiro - aka Público - apresenta hoje este título:


Depois lêem-se as letras pequenas e percebe-se que, ah!, estão apenas a falar, hoje, de uma previsão relativa ao referendo de ontem. E eu já a pensar que, face à impossibilidade de conhecer o resultado final antes do fecho do jornal (os fusos horários são tramados!), se tinham posto a adivinhá-lo, na esperança de fazer um brilharete nas bancas.

30 novembro 2007

Crónica de um roubo oficial


Ontem fui vítima de um roubo; roubaram-me 250 euros e depois deixaram-me ir à minha vida. Detalhe: o ladrão foi o Estado.

O Estado acha que o meu carro (de 2003) já devia ter ido à inspecção há dois meses. Pois devia. Mas o carro ainda cheira a novo (comprei-o, de serviço, em 2004), está bom e recomenda-se e, mais a mais, inspecção é coisa para os Mercedes dos taxistas (comprados em Portugal há vinte anos e na Alemanha há outros vinte), que emitem CO2 para cima dos clientes, abanam e rangem por todos os lados, tresandam dos bancos e só por milagre não se desfazem a meio do percurso.

Esqueci-me, portanto, que o meu carro afinal não é novo.

O Estado começa por vasculhar todos os documentos e, debalde, dá duas voltas ao carro em busca de mais infracções. Eu vou dizendo que posso ir já directamente para a inspecção (são 9h.00 da manhã, tenho todo o tempo do mundo), que me desculpe a distracção mas, bem vê, o carro está óptimo, não constitui nenhum perigo para a circulação daqui até ao IPO mais próximo. Além do mais, só passaram dois meses, há com certeza um período de nojo.

Não há. O Estado está ali para fazer cumprir a lei e a lei diz que a coima para esta infracção são 250 euros.

250 Euros. 50 contos. As coisas que eu já deixei de comprar por muito menos que isso! Não. O Estado não tem só o dever de fazer cumprir a lei, tem também essoutro que é o de fazer prevenção, de educar o cidadão. E limitar-se a educar pelo castigo não é digno de uma pessoa de bem. O Estado, que sabe tudo sobre os carros de toda a gente e até envia os selos pelo correio, podia, nesse mesmo envio, aproveitar para relembrar o cidadão das suas obrigações enquanto condutor (não vá este andar distraído a pagar a Contribuição Autárquica, a Taxa de Conservação de Esgotos, o IRS, o Seguro do Carro, e... esquecer-se da inspecção).

Mas isso é com a DGV, não tem nada a ver. O Estado está aqui para fazer cumprir a lei e a lei diz que a coima para esta infracção são 250 euros.

Uma coima de 250 euros é um absurdo. É pura extorsão. Só prova que o Estado está muito mais interessado nos lucros obtidos pela perseguição dos cidadãos que pela sua educação. A curto prazo, é mais rentável. E mais fácil. E mais compatível com um Estado do 3º mundo, também.

A lei é para ser cumprida. Portanto, pode pagar os 250 euros já ou então paga só daqui a 15 dias…

(daqui a 15 dias, claro!)

… e o Estado apreende-lhe o carro. É escolher.

Escolho pagar logo, no terminal de Multibanco portátil que o Estado traz consigo. Curioso: o Estado que paga 403 euros de salário mínimo é o mesmo que acha que as pessoas têm, normalmente, 250 euros para dispor em qualquer momento.

O terminal não liga. Deve ser a bateria. Santos, traz a outra bateria. Mas essa bateria estava carregada! Não, não estava, senão tinha ligado. Agora sim. Não há rede, a rede na Baixa é do pior. Não é a rede, o cabo é que está descarnado. Pereira, vai buscar um cabo que este está uma miséria. (o Pereira arrasta-se para lá e depois novamente para cá, agora com um cabo igual, mas em bom). Não será melhor ligar o cabo também ao terminal? Hum. Já funciona, dê-me então o seu cartão. Verde-código-verde.

(silêncio)

Olha, bloqueou. Santos, e agora como é que isto se faz? Experimenta tirar e pôr a bateria. Está na mesma. A senhora vai ter que me dar o cartão outra vez para pagar.

Mas eu já paguei.

Mas isto cancelou.

Eu não vi nada cancelado, vi bloqueado, não é a mesma coisa.

Tem razão, eu devia ter-lhe mostrado o cancelamento… mas ainda não pagou, tem que pagar.

E paguei. No Multibanco ao fundo da rua.

26 novembro 2007

Os livros


A Teka do Apontamentos Sentidos desafiou-me há dias para uma corrente sobre livros (não, Teka, não me tinha esquecido!) e, por isso, aqui estou (acho que pela primeira vez!) para falar de um livro. Antes, porém, duas considerações:

- sempre fui um tanto ou quanto avessa às correntes, muito por culpa daquelas que recebi e que acabavam com o inenarrável "se não enviares isto para 147 pessoas no próximo minuto, sofrerás uma grande desgraça..."; nunca percebi que raio de amigo é capaz de nos sentenciar desgraças imensas só para salvar a própria pele (assim, de repente, só me estou a lembrar daquele amigo que, no Monopólio, nos dá um tiro). Felizmente, não é de uma ameaça que se trata aqui mas de um convite ao prazer de folhear um livro e de partilhar a descoberta das palavras que lá moram;

- pegar no livro mais próximo, quando se vive numa casa pequena, tem a vantagem de nos permitir escolher qualquer um, já que todos os livros estão, inevitavelmente, próximos; portanto, foi isso que fiz: fui abrindo páginas 161 à procura de uma 5ª frase que, fora do contexto, valesse por si.

Comecei pelo Mau tempo no canal, do Vitorino Nemésio, livro que foi e veio de férias comigo marcado exactamente na mesma página - já devia ter aprendido que, em férias urbanas, não sobra tempo para ler! - mas achei que a página 161 não era suficientemente representativa. Depois passei a outro e outro e mais outro, até que cheguei ao A Gloriosa Família, do Pepetela.

O livro conta a história da família Van Dum e passa-se no séc. XVII, em Luanda. Particularidade deliciosa: o narrador é o escravo do Sr. Van Dum, que o segue para todo o lado e vai comentando tudo o que vê e não vê (o que não vê imagina, já que, como ele dirá a certa altura, a única liberdade de um escravo é imaginar).

Abri, então, a página 161 e não resisti a trazer para aqui não uma frase mas um parágrafo inteiro, com uma consideração do escravo (ao longo da história nunca haveremos de saber o seu nome) sobre o adultério:

"Os brancos são mesmo engraçados, de tudo fazem um drama. Se um homem é apanhado em adultério, se desafiam para duelos, têm pelo menos de se ferir, senão o marido enganado deixa de ser considerado homem, é um miserável cão. Complicam enormemente as coisas, dá divórcio, depois é preciso saber com quem ficam os filhos e como vão dividir as propriedades e os bens, enfim, uma trabalheira. (...) Na terra da minha mãe é tudo muito mais fácil, o enganador apanhado em flagrante tem que pagar uma multa, que alguns chamam macoji, e pronto, com a galinha ou o cabrito entregue fica reparado o dano provocado na família. Continuam todos amigos, a paz reina. Se do acto nascer um filho, é pertença da casa onde nasceu, e o pai é evidentemente o marido da mulher. Quem pode mesmo saber se o acto provocou a gravidez? E porquê haveria uma criança de pagar pelo erro dos outros, ficando bastardo como entre os brancos? Depois, eles é que são os civilizados...".

A simplicidade pode ser desarmante. Aliás, tenho para mim que é precisamente por isso - pelo medo de nos sentirmos desarmados - que complicamos tudo.

Pepetela, A Gloriosa Família, Publicações D. Quixote, Lisboa, 1997 (1ª Ed).

22 novembro 2007

A montanha pariu um rato


Fui ver o concerto de Marilyn Manson como quem vai a uma instalação: sem saber ao que vai mas com vontade de ir, na esperança de ser surpreendido.

Nesse sentido, posso dizer que a surpresa maior foi constatar que o concerto não foi, em si, muito diferente daqueles – maioritariamente pop - a que costumo assistir: muita música, algumas mudanças de roupa e muito pouca encenação (ou melhor, muito menos do que aquilo que se poderia esperar de alguém permanentemente caracterizado e frequentemente associado a acontecimentos menos, digamos, felizes): salvo aparições fugazes de um microfone em forma de punhal, uma bíblia a arder, um ringue de boxe e uma cadeira gigante, o que aconteceu foi sobretudo um concerto de uma banda competente liderada por um tipo com boa voz (outra surpresa).

Na assistência estavam os tugas de sempre, que insistem em bater palmas quando estas a) não são pedidas pela banda e b) não se enquadram na música em questão, e que, mal ouvem a palavra Pórtchugal, desatam a gritar "Portugal-auê" (assumo a minha falta de pachorra para estas – e outras – manifestações de nacionalismo bacoco, temos pena!).

Uma hora e meia depois, e apesar do batalhão de seguranças para um pavilhão meio cheio, saí calmamente a pensar que aquele rapaz de aspecto frágil que manda beijos para a assistência não é O Marilyn Manson. Ou então está apenas mais crescido. É, deve ser isso.

P.S. Ao lado, mObscene, ao som do qual me fartei de dançar.

19 novembro 2007

O "grupúsculo"


Fazia parte de um «grupúsculo». E todos os «grupúsculos» eram, ou diziam-se, de extrema-esquerda. Eu pertencia a uma coisa chamada MAR (Movimento de Acção Revolucionária) - achavam este nome muito bonito - cujo chefe era Jorge Sampaio.

E o que faziam?
Nada.

(Vasco Pulido Valente, em entrevista ao Expresso este fim de semana).

Inverno


Agora que já todos nos recordámos de como é um dia triste e frio de Inverno, podemos voltar ao Verão de S. Martinho (castanhas incluídas), s.f.f.? Obrigada.

04 novembro 2007

É oficial


As férias acabam dentro de 40 minutos. Shit.

12 outubro 2007

Da paz, senhores?!?


Um gaijo que anda pelo mundo a emitir CO2 enquanto vende opiniões catastrofistas e demagógicas sobre o aquecimento global do planeta poderia, quando muito, ser prémio nobel do oportunismo. Ou da hipocrisia. Ou da estupidez. Ou do chico-espertismo (caso fosse Português).